A mulher no início da urbanização de São Paulo



Aproveitando o gancho dos aniversários de São Paulo e da USP no começo da semana, vou trazer um tema que tratei brevemente em uma parte da minha tese de doutorado[1] e que me deixou com vontade de estudar mais a respeito – os problemas sofridos pela mulher, principalmente a negra e pobre, na época do desenvolvimento das grandes cidades como São Paulo, no fim do século XIX e começo do século XX.


Nesse período o Brasil passou por uma série de mudanças: consolidação do capitalismo, ascensão da burguesia, modernização e urbanização das cidades de acordo com o modelo francês. Uma nova mentalidade reorganizou as atividades femininas, cada vez mais voltadas para a vida doméstica, educação dos filhos e dedicação ao marido. O controle da vida sexual da mulher passou a ser parte dos interesses burgueses, pois a virgindade e o posterior casamento poderiam garantir a passagem da propriedade privada pela herança.


A mulher pobre, que precisava trabalhar e circular pelo espaço público, estava cada vez mais longe de “um bom casamento” e, portanto, excluída do padrão imposto de feminilidade. Elas apresentavam em seus costumes a realidade concreta a que eram submetidas. Por exemplo, não eram formalmente casadas, estavam mais expostas e brigavam para se defender nas ruas. Postura compreensível diante da intolerância à pobreza, da vigilância e violência policial, mas que serviu de base para reducionismos e estereótipos que existem até hoje nas representações midiáticas.


A influência da Escola Positivista Italiana, liderada pelo médico italiano Lombroso, contribuiu para o propósito de gentrificação, pois seu teor evolucionista justificava as desigualdades, principalmente raciais, ao relacionar o crime a características físicas. Essas teorias serviam à criminologia e às medidas eugenistas.


Apesar da maior liberdade sexual das mulheres pobres - já que o controle sobre a sexualidade feminina tinha forte vínculo com o regime de propriedade privada - elas, especialmente as negras, estavam mais sujeitas à exploração sexual. Também a violência doméstica era comum nas camadas populares. Os homens se sentiam diminuídos diante do trabalho de suas companheiras, uma vez que as normas sociais delegavam a eles o sustento da casa. Em caso de separação (mesmo se o casamento não fosse oficial), a lei dava prioridade ao pai na guarda da criança – pátrio poder. E era sempre a mulher que deveria encontrar outro lugar para morar e pagar aluguel.


As negras encaravam situação ainda pior. Depois da abolição da escravidão, elas continuaram trabalhando nos setores mais desqualificados, como lavadeiras, engomadeiras, doceiras, bordadeiras, floristas, cartomantes ou prostitutas. Eram ainda mais invisibilizadas pelo interesse no embranquecimento da população. Por exemplo, suas fotos raramente apareciam nos jornais de grande circulação na cidade, ao contrário das brancas (muitas delas imigrantes europeias que trabalhavam como operárias em fábricas).


O fato é que as mulheres negras e pobres estavam presentes no cotidiano da cidade e circulavam pelas ruas antes mesmo da abolição da escravatura, como escravizadas de ganho. Inclusive o crescimento urbano e as políticas eugenistas foram responsáveis pela substituição das quitandeiras e das casinhas por mercados, cafés e restaurantes.

As quitandeiras eram mulheres negras livres ou escravizadas de ganho do século XIX que vendiam alimentos em tabuleiro nas ruas, como doces, biscoitos e cuscuz. Elas estavam em várias partes centrais da cidade, como o Largo da Misericórdia, local de reunião da população negra. Conflitos entre as quitandeiras e as autoridades municipais eram constantes. Já as casinhas eram espaços de venda de mantimentos trazidos pelos tropeiros, presentes na chamada rua das Casinhas, onde mulheres também trabalhavam.


Uma quitandeira famosa, entre 1850 e 1860, foi Maria Emília Vieira, conhecida como Maria Punga. Ela torrava e vendia café, junto com doces em sua casa na rua Imperatriz, atual 15 de novembro. “Dizem que ela usava argolas de ouro e no colo ‘um raminho de arruda e figa de guiné contra mau-olhado’. Seus bolos de fubá, bolinhos de tapioca e broinhas de polvilho também faziam sucesso na freguesia, que agregava estudantes, boiadeiros, comerciantes e artistas. Este é o primeiro café de São Paulo de que se tem registro.”[2]


Pesquisas sobre o cotidiano das cidades são fundamentais para o entendimento da história e seus atores invisibilizados, como as mulheres pobres e os negros. Documentação policial e judiciária, assim como relatos de cronistas, são umas das poucas fontes de pesquisadores para coletar informações. O coletivo Cartografia Negra (SP) também desenvolve trabalho importante de resgate das narrativas negras em São Paulo. O projeto do coletivo “Um novo olhar, sobre uma narrativa ancestral”, com apoio do Instituto Moreira Salles (IMS), é a fonte da imagem exposta aqui. Vale a pena conhecer.


Referências bibliográficas

D´INCAO, Maria Ângela. Mulheres e família burguesa. In: DEL PRIORE, Mary (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

FONSECA, Cláudia. Ser mãe, mulher e pobre. In: DEL PRIORE, Mary (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade: corpo feminino. In: DEL PRIORE, Mary

(org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

SILVA, João Luiz Maximo da. Alimentação de rua na cidade de São Paulo (1828-1900). Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH/USP, 2008. 246p.

SOIHET, Rachel. Mulheres pobres e violência no Brasil Urbano. In: DEL PRIORE, Mary (org).

História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

“Um novo olhar, sobre uma narrativa ancestral” do Coletivo Cartografia Negra (SP). Disponível em: <https://ims.com.br/convida/cartografia-negra/cotidianos/>. Acesso em janeiro de 2021.


Imagem: Duas mulheres conversando. São Paulo, SP, Brasil, circa 1910. Foto de Vincenzo Pastore / Acervo IMS.


[1] A construção discursiva televisual da mulher popular na telenovela: um estudo sobre as personagens de Avenida Brasil e A Regra do Jogo, realizada na ECA/USP. [2] Do texto de Carolina Piai Vieira do projeto “Um novo olhar, sobre uma narrativa ancestral” do Coletivo Cartografia Negra (SP), disponível em https://ims.com.br/convida/cartografia-negra/cotidianos/

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