AS SINAPSES DE UMA MULHER NORTISTA



“Nunca morri de tédio” , disse a freira feminista Maria Valéria Rezende em uma entrevista para a Folha de São Paulo. Isso me provocou ideias e cá estou para discorrer sobre isso.


Eu nunca morri de tédio também e claro que isso é mentira. Sou dada a mentiras em manhãs ensolaradas nestas terras amazônicas. O tédio me ataca quando dou bolas para a preguiça ou quando paro para fazer algo que gosto muito que é dormir. Tirando isso, minha mente é frenética. Quando criança inventava histórias aleatórias mentalmente com fala das personagens, cenários e tudo mais. Quando estava no ônibus com minha mãe nas viagens longas do subúrbio que morávamos até o centro, viajava nas histórias ou fazia umas coreografias de danças que acabara de ouvir ou estava ouvindo. Imaginava-me dançando livre e com vários passos pomposos, com passos de ballet. Não que fosse bailarina. Queria muito ter sido, mas graças ao velho problema dos sonhadores, o capitalismo, minha família não tinha renda para isso. Só havia os extremos: comer ou dançar. Nem um pouco dada aos extremos eu era e não sou. Gosto do entre as coisas, entre as pontas das vértices.


Gosto de estar entre as pontas, os extremos e talvez por isso goste tanto de viver que nada mais é, como disse a feminista Jout Jout, o intervalo entre o nascer e o morrer em um dos seus vídeos no canal do Youtube, ou será que foi numa entrevista num programa de televisão? Bem, não lembro. Meu cérebro guarda coisas e falas e muitas das vezes nem me dou conta, como as palavras que às vezes escrevo sem nem saber o que significa, mas meu inconsciente sabe e casa perfeito com o que quero dizer. Por diversas vezes tenho que parar a escrita e perguntar ao dicionário o que quer dizer essa ou outra palavra que surgiu na minha escrita nervosa.


Rebobinando esse texto, eu dizia no começo que não morro de tédio por ter uma mente estranha, frenética e criativa demais para o meu próprio gosto. E aqui não estou com falsa modéstia. É cansativo. Pois bem, eu já passei dos trinta e hoje ao escrever uma minibiografia atentei-me que tive êxito em tudo ao que me propus. Não foi um êxito instantâneo no momento em que optei pelo que queria. Levaram anos, mais de 10, porém consegui. E poderia discorrer sobre sonhos, sorte, oportunidades, meritocracia, esforço individual, gênero, feminismo e luta de classes, mas não é esse o tema deste texto confuso, e sim que minha mente frenética me trouxe até aqui, na constatação de metas cumpridas.


Atualmente, eu busco outros horizontes, projetos que guardei para o depois que conseguisse grana para viver e dar algum conforto para os meus, minhas. Em muitos momentos, jurei que ao final de tal demanda descansaria e viveria ao embalar de uma rede, contemplando a natureza nortista tão exuberante, tomando banho de mar ou rio (igarapé), sem me preocupar com metas, prazos, planos, ações. Passou o cansaço, já estou pronta para matutar algo, pensar nas possibilidades, traçar metas, pensar prazos, pôr a mão na massa. E sempre empurrada pelas paixões avassaladoras de minhas aventuras profissionais, de educação e culturais. Eu sonhava quando criança ser escritora, cresci e esqueci isso, retomei o desejo agora, após lutar por um lugar ao sol por mais de dez anos, e cá estou. Desenhando na minha mente como pode ser, o que faço para alcançar, quais os caminhos, sendo eu uma mulher nortista, fora do eixo sul-sudeste.


Talvez de forma até presunçosa esteja a atribuir a mim e minha mente esse encadeamento de projetos ininterruptos e que isso seja algo sentido por todos e todas (Deus me livre apagar o feminino da língua) e seja natural do ser humano. Talvez isso nem devesse ser tema de um texto motivado por uma fala de uma escritora potente como Maria Valéria, mas entre minhas dúvidas e próprias problematizações sem fim em quase tudo que penso, sigo encerrando uns ciclos, inaugurando outros e sem momentos solenes com banda ao fundo tocando, pessoas elegantes e cortes de fita. Sou ansiosa demais. Um erro de programação com certeza a ser controlado para fugir dos extremos que eu disse antes não gostar.


Esse texto não é sobre ser ou não vitoriosa e sim sobre gostar de sonhar, tédio e mente. Tenho muitos defeitos, sou bem escrota às vezes (e gosto de dizer isso em resposta à provocação de Fernando Pessoa em “Poema em Linha Reta”), porém acho que disso posso me orgulhar: sou dada a sonhos e minha cabeça e suas sinapses ensandecidas me ajudam nisso, tendo por consequência a falta, por longos períodos, de tédio. Termino um ciclo e logo acho outro para recomeçar. Seria isso loucura? Depois respondo, preciso ir trabalhar.


*Jheime Sousa, feminista, mãe, mulher amazônica, formada em Letras-UFPA. Especialista em Educação em Direitos Humanos-UFPA. Mestra em Educação Profissional-IFPA. Professora da rede estadual do Pará de Língua Portuguesa e Técnica Administrativa na UFRA.


Fonte da Imagem: @illustraninha, artista paraibana Ana Elizabeth.

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