“Clima, raça e povos originários”

Atualizado: Jan 19


Óleo sobre tela de Djanira Messias Mauro


Assisti recentemente a um webinar muito urgente e necessário, 'Climate, race and Indigenous peoples’, no qual três mulheres de diferentes partes do mundo explicaram a conexão entre o clima, raça e povos originários de certas regiões do planeta, sob a mediação da Dra. Amrita Mukherjee da Universidade de Leeds.


A primeira a falar foi a Ingrid Arotoma Rojas também da Universidade do Leeds, que desenvolveu um estudo com uma tribo indígena da Amazônia peruana chamada Shawi, que está sofrendo diretamente com os efeitos das mudanças climáticas. Enchentes se tornaram frequentes e cada vez mais devastadoras na região. A fauna e a flora locais estão sendo destruídas para extração de óleo de palma e para o desenvolvimento de monoculturas, como o cacau. Os Shawi não conseguem mais caçar como antigamente e não existe mais abundância de comida. Tudo isso está impactando até mesmo as relações interpessoais e tradições, já que as interações e rituais, muitas vezes, são em torno dos alimentos divididos entre a tribo. O que mais me sensibilizou foi o fato deles culparem a si próprios por essa escassez, pois não compreendem que são as vítimas da vulnerabilidade alimentar causada pela devastação da Amazônia. Acredito que cada escolha que fazemos com relação ao que consumimos tem um impacto positivo ou negativo no meio ambiente. Todos nós precisamos saber de onde vêm as coisas que consumimos.


A segunda palestrante foi a Dra. Adelle Thomas, do Climate Analytics, localizado nos Bahamas, que levantou o tema do racismo estrutural contra as pessoas indígenas e negras, evidenciado pela letalidade da polícia. Outro indicador do racismo estrutural, ressaltado por ela, é a dificuldade de acesso dos negros e indígenas a certos lugares, por exemplo edifícios acadêmicos e prédios do governo. Diariamente, essas pessoas são desencorajadas a ocupar alguns ambientes e postos de lideranças ao sofrerem micro agressões racistas corriqueiras, quando têm suas identidades verificadas para confirmar se podem ou não estar nesses locais, enquanto seus colegas brancos não passam por isso. Ela mesma, muitas vezes foi questionada se é secretária ou assistente de alguém quando vai a eventos. Não! Ela é a doutora convidada! E passa por isso com frequência. Impossível não fazer um paralelo com o Brasil em cada palavra que ela disse.


A terceira participante, e a que mais me marcou, foi a Hindou Oumarou Ibrahim, uma mulher de uma tribo nômade no Chade, na África, ativista ambiental e racial. Ela promove ações importantíssimas junto às organizações internacionais para minimizar a vulnerabilidade alimentar e pela igualdade de direitos das populações nativas de diversas regiões no mundo. Entre os vários pontos importantes abordados, ela citou a questão da sua voz não ser ouvida até mesmo quando o assunto se refere aos direitos do seu povo, já que quem tem a palavra e o poder de decisão são sempre os "homens de terno". Obviamente, eles têm uma visão muito limitada do assunto e, mesmo assim, não estão dispostos a ouvir quem tem a propriedade sobre o tema. Isso é extremamente violento e presunçoso na minha visão.


Essa foi a apresentação mais importante que assisti nos últimos tempos. Ela mostra que não importa de qual região do planeta estamos falando, os povos originários sempre são massacrados pela sociedade eurocêntrica que conhecemos.


A educação tem um papel importante no combate ao racismo e as leis devem ser mais efetivas para punir atos racistas. Mas, principalmente, as posições de poder têm que ser igualitárias e ocupadas por pessoas negras e indígenas também. Não veremos mudança enquanto só "homens de terno" tomarem as decisões importantes e, na melhor das hipóteses, abordarem superficialmente assuntos como a equidade racial e de gênero.


Webinar “Climate, race and Indigenous peoples” disponível em:

https://youtu.be/7A6prqtM-QQ

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