Como encontrar nossa batata do coração?

Atualizado: Jan 20

Agnès Varda (acrílica sobre tela, 50 x 40), de Tainah Negreiros, autora da tese de doutorado “A vida e a obra de Agnès Varda em As praias de Agnès (2008)”.

Mais pinturas de Tainah em quatroaventuras.tumblr.com


Inspiração, criação e compartilhamento. Essas palavras guiaram a grande cineasta Agnès Varda (1929-2019), segundo sua própria declaração no documentário Varda por Agnès (2019), dirigido por ela mesma. Às vezes, a inspiração vem de uma batata em forma de coração descoberta em meio aos catadores de alimentos. Catadores e eu (2000), primeiro documentário da artista feito com câmera digital, mostra os respingadores do campo na época de batatas na França.

As batatas grandes, cortadas e danificadas são descartadas pelos produtores por estarem fora do padrão do mercado e, assim, aproveitadas pelos catadores. Foi conversando com um deles que Varda teve contato com as batatas em formato de coração, as quais filmou e levou para casa. O vegetal inspirou a equipe a abordar os entrevistados com afeto, relatou ela. Mas significou ainda mais.

Agnès Varda deixou os legumes amadurecerem, brotarem e murcharem em sua casa. Ciclo de vida, velhice, morte e descarte na sociedade de aparências. Na Bienal de Veneza de 2003, na seção Utopia Station, a batata de coração deu origem à criação que marcou sua estreia nas artes visuais. Ela criou a instalação Patatutopia, inclusive se fantasiou do tubérculo para promover a obra. 700 kg de batata no chão e uma projeção em três telas, espécie de tríptico, das diferentes fases das batatas. Desde então, Agnès aprendeu sobre reciclagem e realizou outras exposições em cima da prática.

Aí está o exemplo de uma mulher bastante inspiradora, que começou a carreira como fotógrafa, no cinema foi marco da Nouvelle Vague e se reinventou nas artes visuais depois dos 70 anos de idade, graças às batatas.

41 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo