“Ela tinha uma certa fragilidade física [...]”




Essa frase de Truffaut na obra em que ele entrevista Hitchcock ficou na minha cabeça depois daquela aula de linguagem audiovisual. Não exatamente assim, pois lembrava dela de outro jeito, algo como: “ela tem uma fragilidade que as outras não têm”. O cineasta francês compara as atrizes Joan Fontaine com Ingrid Bergman e Grace Kelly. O argumento era o de que a fragilidade da atriz a tornava mais adequada para o papel de protagonista do filme Rebecca, de Hitchcock. Imagino que tal julgamento não teria sido aplicado a um artista homem.


Naquela aula, eu trouxe aos alunos um vídeo sobre o filme Suspeita, igualmente dirigido por Hitchcock e protagonizado por Joan, no papel de Lina. Inclusive, a atuação rendeu à atriz um Oscar na época. Também selecionei uma cena de Rebecca para um exercício. A personagem de Joan, uma recém-casada, que não tem nome na trama, entra pela primeira vez na mansão onde vai morar. Ela está acompanhada do marido, um viúvo, que viveu na mesma residência com a primeira mulher chamada Rebecca. Os criados, dentre eles a governanta leal à antiga chefe, esperam a nova patroa na sala da casa. Ao entrar, a jovem fica visivelmente nervosa e insegura quando se depara com a fileira de empregados, enquanto a governanta, senhora Danvers, impõe-se com postura e olhar autoritários.


A atividade foi meio improvisada. Pedi a eles que observassem a cena e descrevessem os planos. Mas, diante da impossibilidade de eles anotarem no escuro, deixei que apenas assistissem e depois imaginassem o trecho novamente com os planos que lhe parecessem coerentes. Não liderei a situação como eu gostaria. Estava vulnerável diante daqueles olhares confusos e desconfiados dos alunos. Observavam-me como se soubessem o que eu mesma nem havia percebido ainda. Era eu uma metáfora da cena ou a cena uma metáfora de mim naquele momento?


Uma aluna apresentou a sua versão. Segundo ela, a recém-casada deveria se impor, não se abater pela postura da governanta. A jovem olharia os criados do alto da escada - contra-plongée em primeiro plano na atriz e plongée em plano de conjunto nos empregados abaixo. De quem ela estava falando, afinal? Da recém-casada ou da professora iniciante? Que história ela queria reescrever? Somente me fiz essas perguntas no carro, quando voltava para a casa.


No final da aula, os alunos iam embora depois de entregaram a atividade na minha mesa. Um deles, um rapaz que sempre assistia às aulas com os olhos vermelhos e lacrimejantes, aproximou-se. Outro dia ele havia me cumprimentado com aperto de mão, como pensei que fosse fazer novamente. Mas dessa vez sua mão se dirigia ao meu rosto. Não tive reação. Em uma atitude reprovável na relação professor e aluno, ele tocou em meu queixo como quem faz um carinho em alguém próximo. Eu nada fiz, abaixei a cabeça constrangida. Devo ter ficado vermelha, senti a quentura na face. Ouvi uma aluna, a mesma que reescreveu a cena, chamar a atenção do rapaz: “Você tá louco? Você encostou na professora!”. Admirei a reação em minha defesa, mas, era eu quem deveria ter reagido. Eu, a professora.


“Ela tem uma fragilidade que as outras não têm”.


Li no mesmo livro de entrevista com Hitchcock que Alma Reville, esposa do cineasta, foi uma das autoras do roteiro de Suspeita. Soube depois que ela sempre contribuía com os filmes do marido e quase nunca era creditada. Será que Truffaut também diria que ela tem uma fragilidade diante de Hitchcock, que a fazia adequada para tal submissão? Como a minha aluna teria reescrito essa história?


Faço esses questionamentos dentro de mim e, sem nunca ter aprendido, tento encontrar caminhos para me reescrever. Para atuar em primeiro plano, primeiríssimo plano, em ângulo normal ou até mesmo contra-plongée quando a situação exigir. Penso em como historicamente as mulheres nunca foram educadas para se impor. As mulheres negras então...Uma colega de trabalho me contou algumas de suas experiências. Por ser negra, ela enfrenta dupla desconfiança em relação à sua capacidade. A mulher negra e periférica - a mais vulnerável socialmente e desprovida de subjetividade em suas representações midiáticas - deve ter muito mais o que relatar a respeito. São lutas sociais, diárias e existenciais.




Fonte da imagem: https://www.revistaprosaversoearte.com/cinema-conheca-13-obras-primas-de-alfred-hitchcock-o-mestre-do-suspense/

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