Eu queria ter escrito antes...


É, eu queria ter escrito antes do Dia das Mães, mas não deu. Eu queria ter respondido aquela mensagem antes que você achasse que eu te ignorei. Eu queria ter lavado o cabelo. Queria ter dormido até às 6h da manhã. Queria ter dormido. Mas a rotina com filhos, de novo, me atropelou.


Seja você mãe, ou não, certamente alguém já te falou que ter um filho – ou mais – implica em noites de sono sacrificadas, jantares e cinema deixados para outra hora, depilação e manicure em débito. Com certeza, você também já ouviu falar que o esforço vale a pena porque é gratificante, porque é o amor maior do mundo etc. e tal.


Mas a verdade é que colocar dessa forma é simplificar demais. Porque tem muita coisa entre uma ponta e outra sobre a qual a gente não costuma falar. Eu mesma só descobri uma porção delas depois de virar mãe. Eu nunca tinha parado para pensar que, depois que o bebê sai, a barriga vai levar meses para voltar ao normal – ou a um novo normal. Que a gente sangra um mês sem parar para eliminar tudo que ainda está lá dentro. E que depois passa outros tantos meses sem menstruar. Não é que eu não soubesse. Só nunca tinha refletido sobre isso.


Não, ninguém nunca me falou que amamentar não era natural. Eu achava que era só colocar o bebê no peito e pronto. Não... tem que acertar a pega, machuca, dói. Às vezes o bebê passa fome, quase sempre a mãe passa desespero. O leite demora a descer, a demanda demora a se ajustar com a produção. Às vezes é leite de menos, às vezes demais. O bebê engasga, o leite jorra, o peito sangra, e a mãe chora.


Eu nunca tinha ouvido falar numa coisa chamada “baby blues” que, ao que parece, atinge mais ou menos 80% das mulheres no pós-parto, e consiste num quadro de melancolia profunda causada pela montanha russa hormonal que viramos nesse período. Eu chorei todos os dias durante pelo menos os primeiros 15 dias do meu puerpério, oscilando entre um sentimento de arrependimento e rejeição ao bebê, e um sentimento de culpa causado pela rejeição, claro. É algo tão profundo que me faz chorar ao falar dele ainda hoje, quatro anos depois.


Nunca imaginei também que bebês não soubessem dormir. Que eles precisam “aprender”. E, para isso, eles precisam de rotina. Isso significa, por exemplo, que durante os dois primeiros anos da minha primogênita ela tomava banho todos os dias no mesmo horário e mamava para dormir. Religiosamente. Todos os dias. Por dois anos. Não tinha sábado, domingo ou feriado. Todos os dias naquele horário, eu estava lá. Não tem “hoje eu não posso”. Agora, ela não mama mais, mas ainda seguimos uma rotina para dormir. Todos os dias. E eu estou lá.


Descobri também que bebê dorminhoco é a exceção. Que eles preferem nosso colo, sempre. E que isso significa dormir várias noites sentada com eles no colo, despertando de quando em quando pra ter certeza de que não estamos caindo, ou deixando o bebê cair. E aprendi que quando a gente vai colocar no berço até prende a respiração para evitar que eles acordem. E que, mesmo assim, eles acordam. Às vezes, parece que eles desmaiaram no berço. Aí você deita na sua cama. Põe a cabeça no travesseiro e agradece por poder dormir a próxima hora, pelo menos. E quando está pegando no sono, eles acordam. É, tem tudo para parecer proposital, mas não é. E a gente tem que tentar não surtar.


Mas, afinal, por que é que eu tô falando tudo isso? Não, não se trata de uma campanha para que ninguém mais tenha filhos. Não tenho pretensão de converter ninguém. E, claro, minhas experiências são muito diferentes das experiências de outras mães. Mas acho que a gente tem que saber em que terreno está pisando. Não é só falta de sono e deixar de lavar o cabelo. É muito mais exaustivo que isso. Já ouvi demais por aí a máxima: “amo meus filhos, mas odeio ser mãe”. Acontece que amar nossos filhos faz parte do “ser mãe”. E todo o sofrimento, cansaço e dedicação fazem parte do processo de construir uma relação única, de um amor único. Mas todo o sofrimento, cansaço e dedicação não precisam – nem devem – ser exaltados. Devem ser enxergados, apontados, discutidos. Para que todo mundo entenda. Para que a gente tenha apoio. Para que, a partir desse apoio, a gente possa construir uma sociedade mais justa e igualitária não apenas para os nossos filhos. Mas para nossas mães.


Aline Sgarbi é uma eterna curiosa com as coisas do mundo, o que a levou a ser jornalista, para ouvir e contar histórias. Mãe de dois, agora conta histórias também para seus rebentos.

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