Individuação feminina nos mitos e contos de fadas





Como tratado no post “Narrativas como interpretação do mundo e de nós mesmos”, mitos, lendas e contos de fadas têm relação entre si e com o íntimo do ser humano, além dos contextos sociais e culturais.


Nos contos de fadas, sagas de transformação feminina remetem a antigas mitologias (anteriores à idade cristã) e à psique humana. Vou abordar, de maneira breve e pela ótica junguiana, a referência à história de Deméter/Core (Perséfone) nos contos alemão Mother Holle e o russo Vasalisa. Ambos coletados no século XIX, o primeiro pelos irmãos Grimm e o último por Alexander Nikolayevich Afanasyev.


No sentido psíquico que pretendo tratar, a ideia de arquétipo é fundamental.

"O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta." (JUNG, 2008, p.17).


Nessa perspectiva, a jornada da heroína se relaciona com o percurso de individuação da psique feminina, do equilíbrio entre consciente e inconsciente. O arquétipo materno é constante nessas histórias.


Passemos à narrativa de Deméter e Core.

Deméter, da mitologia grega, é a deusa da agricultura, mãe de Core que é raptada por Hades, deus do inferno. Core casa-se com Hades, muda seu nome para Perséfone e vira rainha do Tártaro, o mundo inferior. Deméter à procura da filha ameaça não fornecer mais cereais aos homens. Para satisfazer sua mãe e impedir que ela cesse o fornecimento de alimento, Perséfone passa a viver três meses por ano no submundo e nove meses na Terra com sua mãe, acompanhada da deusa Hécate.


O arquétipo da mãe aqui se relaciona não só com Deméter e Hécate, mas também com a simbologia da agricultura em Deméter. Hades representa o animus (aspecto masculino inconsciente) que precisa ser conscientizado para o crescimento psíquico que, por sua vez, deve se desvincular do materno muito protetor e infantil.


O inconsciente geralmente é expressado pelo escuro, o que está abaixo, fundo das águas, meio do mato e noite. No caso do mito de Core é o Tártaro. A Hécate, como guardiã de Perséfone vinda do submundo, é uma espécie de contraponto materno que representa transformação e um ponto de convergência entre consciente e inconsciente, assim como a própria troca de nome de Core. Como Perséfone ela volta à companhia da mãe durante nove meses ao ano, mas transformada.


No mito, os três meses no Tártaro correspondem ao inverno, momento de maior escassez agrícola. De acordo com Jung, quando o homem mitologiza fenômenos físicos, como as estações do ano, ele está projetando no exterior os seus dramas interiores.


Mudemos para Mother Holle

Neste conto, há a figura da madrasta, como é recorrente nos contos de fadas. Uma viúva tem duas filhas, mas apenas uma delas é biológica. Esta é a preferida e também a mais preguiçosa e menos bela. A outra é a encarregada das tarefas domésticas e costuma fiar na beira de um poço até os dedos sangrarem. Certo dia, a menina trabalhadeira decide lavar o seu fuso de fiar sujo de sangue, mas ele cai no fundo do poço. Quando conta o ocorrido para a madrasta, a mulher ordena que ela resgate o objeto. A menina obedece, mas sem saber direito o que fazer, simplesmente pula no poço e desmaia. Quando acorda, ela se encontra deitada em uma pradaria, pela qual caminha e se depara com um forno cheio de pães. Estes pedem para serem retirados do forno caso contrário queimarão. A menina retira um a um e continua a andar, quando uma árvore carregada de maçãs pede para ser sacodida, pois seus frutos estão maduros. A garota atende, empilha as maçãs e segue até encontrar uma casa. É a residência de Mother Holle, uma velha com dentes enormes. A menina se assusta, mas a velha é inofensiva e pede à garota que faça suas tarefas domésticas em troca de comida e abrigo. Um dos afazeres era chacoalhar o edredom até suas penas voarem, o que Mother Holle explica ser a forma da neve chegar à Terra. A garota realiza todos os serviços, recupera o seu fuso e quando vai embora, ao passar por um portão, é banhada de ouro da cabeça aos pés. Essa foi a recompensa por ter se esforçado no trabalho. Quando chega em casa, a madrasta manda a outra filha descer até o fundo do poço, imaginando que terá a mesma sorte da primeira. Porém, como essa é preguiçosa e não cumpre bem as tarefas domésticas pedidas por Mother Holle, ao invés de ouro é banhada com piche, que gruda em seus cabelos para sempre.


Maria Tatar (2004) identifica nesse conto referências ao mito da Core pelo fato de a protagonista enfrentar uma espécie de rito de passagem em um lugar distante de casa; e também nas penas do edredom que se transformam em neve, em alusão ao período de inverno no qual Perséfone permanece no submundo. Tatar reconhece na narrativa a conquista da independência financeira conseguida com a ajuda de Mother Holle e simbolizada nos momentos de transição dos pães e das maçãs.


Assim como Jung destaca Hécate e Deméter como figuras maternas superiores, é possível considerar Mother Holle da mesma maneira. Trata-se de um arquétipo materno elevado, que dá forças para a garota se liberar da situação ruim que vivia com a madrasta e a irmã. É importante notar o fato de Mother Holle ser descrita como velha e feia (comumente como as bruxas), mas ao mesmo tempo boa. Tem-se aí uma herança da cultura politeísta da Antiguidade, quando os deuses eram ambíguos - bons e maus.


Outros elementos podem ser associados ao arquétipo materno neste conto, de acordo com a teoria junguiana. São eles: a pradaria, o poço, o forno e a árvore. Como o local onde se encontra Mother Holle é o inconsciente (o fundo do poço), as várias simbologias maternas aqui são referências ao resgate do animus, do poder de produção, do fornecimento de frutos, de alimentos e provimento financeiro. Também merece destaque o sangue no fuso de fiar como figurativização da menstruação e perda da virgindade que, por sua vez, remetem ao crescimento e à transformação.


A tríade mãe-jovem-deusa está tanto no mito de Core, como no conto Mother Holle. Neste último seria madrasta – jovem-deusa.

Tatar também trata da semelhança entre Mother Holle e a Baba Yaga russa, mas esse é o tema do próximo post sobre o conto Vasalisa.



Referências

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2008

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Aleph, 2006.

TATAR, Maria (Org). The annotated brothers Grimm. WW Norton & Company: New York, 2004.


Ilustração de Johanna Westerman


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