Mulher de rapina

Atualizado: Jan 20

Ilustração: Rosana Mauro


Estatira estava no ônibus a caminho de Bertioga há uns 20 minutos quando, para passar o tempo, apanhou da bolsa o papel amarelado com as ilustrações de aves australianas. A folha, que parecia arrancada de um livro antigo de colecionador, aparecera misteriosamente há uns meses na gráfica onde trabalhava. Como ninguém reivindicou a propriedade do material, pegou-o para si. Desde então, desenvolveu considerável interesse por aves e ilustrações antigas. Uma verdadeira fixação por tais assuntos ganhou espaço em sua vida. Eram-lhe peculiares pensamentos e interesses obsessivos.

Foi em um dia desses, tomada pela nova atração, que lhe ocorreu a ideia de entrar mais em contato com a natureza. Desejava ver de perto aves grandiosas, que não fossem os urubus que observava de sua janela, pousados no topo dos prédios em São Paulo. Não que não gostasse de urubus, muito pelo contrário, maravilhavam-na, assim como os condores, que habitam a Cordilheira dos Andes. “São injustiçadas as aves de rapina”, protestava. Pesquisou por passeios e encontrou Vila de Itatinga em Bertioga, o qual reservou por uma agência de ecoturismo. E lá estava ela, a caminho do litoral, em uma excursão que duraria apena um dia.

Ao chegar na cidade litorânea, o grupo turístico rumou às margens do rio Itapanhaú, o qual atravessaram a barco para pegar o bonde na outra margem em direção à vila. Enquanto aguardavam pelo transporte, Estatira se afastou para observar a mata em volta. Distraiu-se, como o habitual, imaginando possíveis histórias na Serra do Mar. Retornou à estação e deu de cara com ela vazia. Os excursionistas pegaram o bonde e a esqueceram lá. Não se importou, pois sabia que não era do tipo de pessoa marcante, que faria falta em tão pouco tempo. Logicamente, esperou por outro bonde. Mas, passou mais de uma hora e nada! “A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José?”, citou Carlos Drummond em pensamento, julgando oportuno para a ocasião. Decidiu seguir o caminho do bonde a pé (7 km!) na esperança de encontrar pássaros pelo trajeto e fotografá-los. Porém, o tempo virou rapidamente. Nuvens negras descarregaram suas águas pela serra sem aviso. Assustada com o aguaceiro, adentrou a mata, deixando o caminho do trilho.

Distinguiu ao longe uma mulher acenando. Uma senhora indígena que, após sinalizar com as mãos, entrou em uma oca. Estatira foi logo atrás, sem cerimônia, como se o encontro tivesse sido marcado. A mulher nada falou, nem a fitou nos olhos, apenas acomodou o corpo atarracado em uma cadeira ao fundo do aposento. Estatira observou o perfil daquela figura, o nariz adunco era semelhante ao bico de uma ave. “Ela toda parece uma periquita australiana”, concluiu.

O interior da oca abrigava uma espécie de exposição histórica sobre a região - ilustrações, recortes de jornais, fotografias, pedaços de livros e cartas. Foi então que Estatira soube que a Vila de Itatinga, e a usina hidrelétrica que a originou, fora construída por ingleses no começo do século XX. Entre as ilustrações expostas, havia muitas de aves. Estranhamente, algumas eram iguaizinhas às da sua folha amarelada, e continham a assinatura de Elizabeth Gould, uma inglesa. Também constavam ilustrações de outras autorias, de pássaros brasileiros, da Mata Atlântica, Amazônia, do Pantanal e da Caatinga. Impressionante foi descobrir ali desenhos de aves de Galápagos, retirados de partes da obra de Charles Darwin, assinados pela tal Elizabeth Goud! Tudo parecia melhor do que se tivesse visto os animais ao vivo, supôs.

Absorta em tanta informação, esqueceu por uns instantes a presença da senhora ao fundo, até o momento em que sons de grandes penas em movimento invadiram o espaço. Voltou o olhar para a índia e não pôde acreditar no que via diante de si. A mulher se transformava em uma enorme ave! Os dedos dos pés encurvavam, os braços criavam penas pretas e brancas e uma cauda de plumas surgia. O mais fantástico foi a transfiguração do rosto. A mulher mirou fixo os olhos de Estatira. Esta viu crescer um longo topete na cabeça da ave. As feições prontas ainda lembravam um rosto humano. “Harpia!”, Estatira gritou em pensamento. A velha era uma harpia! Rapinante rara por ali. Experimentou encanto, mas também medo, principalmente quando o bicho impetuosamente passou a engolir tudo o que via pela frente, inclusive a própria oca. Fechou os olhos, temendo ser devorada. Encolheu-se no chão e percebeu uma grande ventania. Por pouco não saiu voando. Quando conseguiu levantar o corpo, pôde avistar a harpia longe no céu, já livre de nuvens.

Em São Paulo, Estatira não conseguia lembrar se continuou o passeio para a vila depois. Ignorava como voltou para casa, tamanho atordoamento. Não contou para ninguém o ocorrido, pois descreriam. Além do mais, não possuía amigo ou parente próximo a quem pudesse confiar a história. Ninguém soube. A vida seguiu como de costume. E Estatira continuou adquirindo obsessões.


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