Mulher, mãe e feminista



1981 é o Ano Internacional das Pessoas com Deficiência. Também é o ano em que foi inventado o post-it, em que Ronald Reagan foi eleito 40° presidente dos Estados Unidos, e em que morreu Bob Marley e nasceu Britney Spears. Foi o ano do casamento do príncipe Charles e Lady Di, e ano que marcou as primeiras transmissões dos canais MTV e SBT – neste último, inclusive, eu trabalharia por mais de dez anos.


1981 foi o ano em que eu nasci. O mundo vivia sob o espectro da Guerra Fria, o Brasil vivia sob uma ditadura militar e meus pais, nascidos na década de 50, nunca tinham votado em uma eleição democrática até então. Foi o ano em que o último país do mundo a abolir a escravatura o fez – a Mauritânia, no caso. Daí por diante, ao longo daqueles anos 80 e além, o mundo viveria a maior e mais veloz transformação tecnológica, política e social desde os tempos da Revolução Industrial.


O muro caiu, a União Soviética se dissolveu, a Europa inteira se reconfigurou, o Brasil pediu Diretas Já. O comunismo deu lugar à social-democracia, e a abertura econômica e a globalização derrubaram fronteiras. Nós começamos a comer salmão. Do lado de cá, passamos a sonhar em fazer uma faculdade e, mais do que isso, escolher a própria profissão. As mulheres podiam, cada vez mais, aspirar a uma carreira, em vez de a um casamento.


Tudo isso para dizer que foi nesse contexto que eu cresci. A internet abrindo um mundo de conhecimento bem na minha cara, a era Lula permitindo que eu, nascida e criada na periferia, pudesse viajar ao exterior economizando uns trocados. Talvez por isso eu nunca tenha sonhado em ser mãe. Mas pode ser que seja só porque nunca tenha achado essa ideia atraente, mesmo. Para falar a verdade, eu não me lembro de brincar de bonecas assumindo o papel de “mamãe”.


Aí eu fiz 35, e achei que tinha que encarar aquele dilema que toda mulher, praticamente, já enfrentou ou enfrentará um dia. Relógio biológico correndo... e agora? Hoje, há inúmeras alternativas para termos filhos cada vez mais tarde, mas exatamente por não sonhar com a maternidade, fazer tratamento nunca foi uma opção. Porém, como boa canceriana, sempre me acompanhava aquele medo de me arrepender no futuro. Então, como costumo dizer, entreguei para o universo e ele devolveu bem no meio da minha fuça: um mês depois de seguir o conselho de Odair José e parar de tomar a pílula, positivei no testezinho de farmácia. E a primeira coisa que me passou pela cabeça, eu juro, foi: “que merda eu fui fazer?”


O que veio depois foi um turbilhão de emoções, picos hormonais, alternância entre aquele amor incondicional de que tanto falam, e vontade de fugir do mundo para ficar longe daquela criança que só chora, que não dorme e não te deixa dormir. A maternidade é, de longe, a aventura mais louca na qual me joguei – e olha que já peguei o trem da morte na Bolívia, e comi em um restaurante de fronteira ali, onde, da minha mesa, era possível ver as cholas urinando nas ruas de terra.


Eu não sou a primeira a dizer isso, certamente não serei a última: eu amo meus filhos, mas a maternidade é exaustiva, é dedicação total, é esquecer de quem você era antes por muitos longos meses, e depois levar outros tantos longos meses para se achar de novo. Dizer isso é libertador. Mas ainda é polêmico. E enquanto for polêmico, seguirá sendo necessário que falemos sobre isso. Para achar nosso lugar nas questões feministas. Afinal, também queremos ser livres e independentes, mas temos uma (ou mais) crianças amarradas aos nossos pés. Hoje eu, que sempre disse detestar criança, e que amava viajar sozinha, sem dar satisfação para ninguém, vivo um modelo tradicional de família: marido, dois filhos, gatos e plantas. A única entre todas as minhas amigas mais próximas. E, mesmo assim, nunca achei tão urgente falar sobre feminismo – até para educar meus filhos feministas, como já preconizava Chimamanda Ngozi Adichie. Essa é a ideia por trás dos textos que pretendo trazer aqui. Porque, afinal, lugar de mulher é onde ela quiser. Mesmo que seja para ser bela (ainda que com pança de ex-grávida), recatada (para evitar falar palavrão diante dos filhos), e do lar.



Aline Sgarbi é uma eterna curiosa com as coisas do mundo, o que a levou a ser jornalista, para ouvir e contar histórias. Mãe de dois, agora conta histórias também para seus rebentos.



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