Narrativas como interpretação do mundo e de nós mesmos



Todas as narrativas têm relação com o seu contexto social, cultural e também com a psique humana. Com os mitos, lendas e contos de fadas não é diferente. É fascinante a forma como esses relatos atravessam os tempos e se conectam entre si por mais que sejam de regiões diferentes.

Como alguns estudiosos demostraram, personagens e seus percursos comumente se repetem com algumas variações. Por exemplo, elementos básicos do conto Cinderela[1] estão presentes em muitos outros, como o egípcio “a princesa com a roupa de couro” coletado pela escritora inglesa Angela Carter.

Na verdade, a primeira Cinderela que se tem registro é a chinesa Yeh-Hsien de 850 d.C. Existem muitas outras como a francesa Cendrillon, a croata Pepeljuga, o conto inglês Casaco de Musgo, a norueguesa Katie Woodencloak e a italiana Cenerentola.

Na contemporaneidade também é uma constante enredos baseados na Cinderela, vide as mocinhas injustiçadas de telenovela, conforme observou a acadêmica Heloísa Buarque de Almeida. Geralmente elas passam por uma série de provações até conquistarem o que desejam no final, como uma ascensão amorosa ou financeira. [2]

A frequente presença da madrasta e de crianças órfãs nos contos de fadas é atribuída por Carter a um contexto histórico de instabilidade, quando a taxa de mortalidade das mães era muito alta e uma criança poderia ter várias madrastas durante a vida. A crueldade atribuída a essa personagem também simboliza a ambivalência da figura materna, de um modo geral, em termos psicológicos.

Há questões que ultrapassam as barreiras sociais/materiais e se conectam com o íntimo do ser humano, com os arquétipos e o inconsciente coletivo teorizado por Jung. De acordo com Christopher Vogler [3], autor de A Jornada do Escritor, o arquétipo do herói se relaciona com o ego. “No processo de nos tornarmos seres humanos completos e integrados, somos todos Heróis, enfrentando guardiões e monstros internos, contando com a ajuda de aliados”.

Diana Barros, por sua vez, expõe que: “As estruturas narrativas simulam, por conseguinte, tanto a história do homem em busca de valores ou à procura de sentido quanto a dos contratos e dos conflitos que marcam os relacionamentos humanos”.

As sagas de iniciação feminina nos contos de fadas seriam trajetórias de amadurecimento da heroína. Elas remetem às mais antigas mitologias, por exemplo a da grega Deméter e sua filha Core, posteriormente Perséfone. Pretendo em próximo post explorar a condição triádica desse mito e sua influência em contos como o alemão Mother Holle e o russo Vasalisa.


Imagem: ilustração de 1910 para o conto "Cinderela", feito por Hanns Acker. Retirada de reportagem da BBC.


Referências

ALMEIDA, Heloisa Buarque de. Telenovela, consumo e gênero. Bauru, SP: EDUSP, 2003.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. 2011. Teoria Semiótica do Texto. São Paulo, Ática, 96 p.

CARTER, Angela. A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2008

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Aleph, 2006.

TATAR, Maria (Org). The annotated brothers Grimm. WW Norton & Company: New York, 2004.

VOGLER, C. A Jornada do Escritor. Tradução: Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

[1] A versão mais famosa é a alemã dos irmãos Grimm. Sua coleção de contos de fadas de 1812 e 1815 se tornou a fonte autorizada dos contos de fadas, junto da publicação do francês Charles Perrault de 1697. Mas os contos misturam, normalmente, discursos de diferentes culturas. [2] Eu analiso a ascensão de uma personagem de telenovela no artigo acadêmico O modelo da “mocinha” em ascensão social: proposta de análise semiótica de personagens na teleficção. [3] Autores como Jung, Campbell e Vogler tratam das personagens por uma perspectiva masculina. As personagens femininas são colocadas como um objeto a ser conquistado. Silvia Oroz, Maureen Murdock e Victoria Lynn Shmidt são algumas das estudiosas que trazem o protagonismo feminino.

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