Os objetos de Silvina Ocampo



Biombos com flores e querubins pintados; colunas de mármore e estátuas; babados de nylon nas tampas do sanitário, nas prateleiras da sala de jantar e nos armários; relógios de vários tipos, que dispara canhão ao meio dia, relógio em formato de fonte, com escada, carruagem e cavalos; cachorro embalsamado; caderno com figuras coladas, como o rosto de uma criança entre um ramalhete de lilases; aldraba em formato de leão mastigando um aro; mesa de cabeceira que é cadeira, mas a cadeira é uma almofada de veludo; frasco de perfume sem etiqueta decorado com cupidos; peruca; peso de papel de vidro com flores pintadas; cavalo de madeira montado em um triciclo; retrato de pessoas vestidas de indígena e amazona.


Esses são alguns dos objetos mencionados por Silvina Ocampo nos contos de A fúria. No posfácio, Laura Janina Hosiasson destaca o poder das imagens nos escritos da argentina Ocampo, sua vocação pictórica (a escritora estudou desenho e pintura em Paris) e a importância do espaço em suas narrativas, como a residência Kitsch de A casa de açúcar (o favorito de Julio Cortázar).


Os contos são fantásticos; alguns, até macabros, envolvendo crianças perversas. O horror e o humor, explica Hosiasson, estão misturados nas narrativas. Inclusive, os próprios objetos compõem o tom humorístico, ao conotar mau gosto e sugerir banalidade contrapostos aos acontecimentos assombrosos e estranhos.


Não deve ser à toa que a importância dos objetos é exposta explicitamente pela fala do narrador em Voz ao telefone (um dos meus preferidos): “os objetos são como aqueles marcos que indicam os quilômetros percorridos: a casa tinha tantos, que minha memória está repleta de números”.


Mais evidente essa força está no conto intitulado Os objetos, no qual a protagonista se vê perseguida por eles. Parece metáfora para as lembranças, ou quem sabe até mesmo remeta a um transtorno de acumulação a assombrar a personagem. “Enquanto Camila, inquieta, tentava pensar em outras coisas, os objetos apareciam, nos mercados, nas lojas, nos hotéis, em todo canto, da estátua de bronze com a tocha que iluminava a entrada da casa ao pingente de coração atravessado por uma flecha. A boneca cigana e o caleidoscópio foram os últimos”.


Os contos de A fúria são complexos, imagéticos e dão vazão à reflexão, pois não oferecem conclusões. E os objetos revestem as histórias com mais camadas. Merecem até uma análise à parte.


Fonte da imagem: revista Cult

7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo