Percurso de iniciação feminina no conto Vasalisa


Dando continuidadade ao post sobre a iniciação feminina nos contos de fadas, vou tratrar do conto russo Vasalisa como comentado anteriormente. Minha abordagem é baseada em Mulheres que correm com lobos de Clarissa Pinkola Estés (1994), escritora e psicóloga junguiana. Neste livro, a autora traz diversas histórias para tratar da força feminina e da necessidade de a mulher se reconectar com o que ela chama de natureza selvagem.


Uma delas é a de Vasalisa, que me chamou muito a atenção quando li a obra pela primeira vez em 2009. As análises feitas por Clarissa Estés levam em consideração a psique de uma única mulher, ou seja, todos os personagens e elementos da narrativa são símbolos psicológicos, de acordo com a perspectiva de Jung dos arquétipos e inconsciente coletivo.


Vamos ao conto. Vasalisa, uma garota doce e obediente, ganha de sua mãe moribunda, um pouco antes de morrer, uma pequena boneca, à qual deve pedir ajuda sempre que precisar, além de levar consigo para todos os lugares e alimentar quando sentir fome. Também é aconselhada pela mãe a não falar sobre a boneca com ninguém.


Viúvo, o pai se casa novamente com uma mulher que tem duas filhas. As três não gostam de Vasalisa, tratam-na como criada e com desprezo. Certo dia, elas combinam de deixar a lareira se apagar para mandar Vasalisa ir à floresta pedir fogo a Baba Yaga, bruxa que mata e come pessoas.


A menina inocentemente obedece. Apesar do medo, no meio da mata escura, ela conta com sua boneca em seu bolso para lhe indicar as direções corretas, enquanto a alimenta com um pouco de pão. No caminho, o dia nasce assim que um homem de branco passa em um cavalo branco, o sol aparece após a passagem de um homem de vermelho montado num cavalo vermelho, e quando atravessa um cavaleiro de negro em um cavalo negro a noite cai.


Enfim, chegam ao destino desejado, a morada de Baba Yaga, cercada por caveiras e ossos com fogo interno. A casa fica em cima de grandes pernas de galinha que andam e giram. Dedos humanos e focinho com dentes pontiagudos servem de cavilhas (para portas e janelas) e tranca de porta, respectivamente. Baba Yaga, feia e velha como toda bruxa de contos de fadas, voa em um caldeirão e rema o ar com um pilão. Também varre o próprio rastro com uma vassoura feita de cabelo.


Ao ser vista e abordada pela velha, com auxílio da boneca, Vasalisa solicita à bruxa o que procura – fogo. Mas em troca Baba Yaga ordena que a menina lhe faça alguns trabalhos e a ameaça de morte caso não sejam realizados a contento. As tarefas são: lavar sua roupa, varrer a casa e o quintal, preparar comida e separar o milho mofado do milho bom.


A boneca sugere que a menina durma e se responsabiliza pelos deveres, realizando-os com eficiência. Baba Yaga se surpreende com tudo feito e convoca seus criados (três pares de mãos) para moer o milho. Depois de comer, manda a menina no dia seguinte limpar a casa, varrer o quintal, lavar a roupa e separar as sementes de papoula de um monte de estrume. Novamente a boneca se incumbe de tudo. E mais uma vez, vendo tudo certo, Baba Yaga chama os seus criados, as mãos, para prensar o óleo das sementes.


Em seguida, a menina faz algumas perguntas à bruxa. Ela quer saber quem eram os cavaleiros vistos antes pela floresta, ao que Yaga responde ser o seu dia o homem branco no cavalo branco, o seu sol nascente o de vermelho e a sua noite o de negro. Apesar do incentivo da própria velha, a menina não faz mais questionamentos, aconselhada pela boneca.


Por fim, Baba Yaga apanha da cerca de sua casa uma caveira cuja luz do fogo sai pelos olhos, nariz e boca; enfia-a numa vara e entrega à menina. A garota pega o objeto e vai embora sem agradecer, por indicação de sua companheira secreta. No caminho de volta também a boneca lhe guia. Chegando em casa, a menina se sente vitoriosa. Por sua vez, a caveira queima por dentro a madrasta e suas filhas só de olhá-las, reduzindo-as a cinzas.


Estés explica que essa história diz respeito à herança da intuição por gerações de mulheres e elenca nove tarefas desempenhadas: deixar a mãe boa demais morrer; conviver com a sombra; navegar nas trevas; encarar a megera selvagem; servir ao não racional; separar isso daquilo; perguntar sobre os mistérios; ficar de pé nas quatro patas; e reformular a sombra.


Deixar a mãe boa morrer dentro de nós faz parte do ciclo vida-morte-vida. É preciso despertar e combater a ingenuidade rumo a uma vida mais plena. Para isso, o convívio com a sombra é necessário e, aqui, diz respeito ao relacionamento com a madrasta e suas filhas. De acordo com Estés, elas podem ser consideradas “criaturas inseridas na psique da mulher pela cultura à qual ela pertence” (1994, p.103). Essas figuras representam a autodepreciação, falta de confiança e outros elementos pertencentes ao superego que restringem, censuram e bloqueiam.


No caminho de ida à mãe selvagem, a intuição assume papel fundamental, figurativizada pela boneca. Estés aponta para a importância da boneca na cultura humana desde a antiguidade, por exemplo no uso em rituais, na louvação à raiz de mandrágora por sua semelhança ao corpo humano e nas imagens do período paleolítico e neolítico.


A socióloga e escritora Martha Robles comenta sobre um cerimonial litúrgico da Grécia antiga no qual camponeses costumavam enterrar uma boneca feita de cerais no inverno para desenterrar na primavera. A autora relaciona esse ritual com o mito de Deméter-Cores-Perséfone (ver post Individuação feminina nos mitos e contos de fadas) . “Esse costume sobreviveu no campo durante toda a época clássica e, com algumas variações, nas zonas rurais da região balcânica até a Idade Média.” (ROBLES, 2006, s.p.).


Nos contos de fada, Éstes explica que a boneca se conecta com os símbolos do duente, elfo, fada e anões. São criaturas sábias que estão sempre trabalhando até quando nós dormimos. Por exemplo, os elfos do conto dos Irmãos Grimm ( TATAR, 2004), descritos como homens bem pequenos que fazem secretamente, durante a madrugada, os sapatos para um sapateiro. Curiosamente, também o leprechaun irlandês é uma espécie de duende cujo ofício é sapateiro.

No encontro com a megera selvagem, a casa de Yaga chama a atenção. Ela tem pernas de galinha, anda e dança. Faz parte do mundo animal que convida a mente a sair da normalidade em demasia. Estés lembra que em sonhos a casa simboliza a organização do espaço psíquico.


A tarefa de servir ao não racional se refere às ordens dadas por Baba Yaga, como lavar roupa, varrer o quintal e preparar a comida. Lavar remete à purificação e renovação. E as roupas são interpretadas como a persona. Esta é o modo como o ser humano se apresenta para os outros, faz parte da nossa faceta social e da aparência.


Estés menciona neste ponto as parcas, ou moiras, pela sugestão do tecido das roupas a serem lavadas. As moiras são, segundo a estudiosa, as mães da vida-morte-vida. Elas fabricam, tecem e cortam o fio da vida. O que deve viver ou morrer nessa lavagem de roupa simbólica do conto?


Varrer, por sua vez, é limpar o espaço de resíduos e organizar o ambiente psíquico. Ao passo que, quando tudo está ajeitado, é possível cozinhar, o que requer fogo e criatividade. Trata-se do preparo do alimento para os nossos relacionamentos psíquicos.


Na sexta etapa, a habilidade do discernimento permite separar isso daquilo. Nem todos os milhos são bons e as sementes de papoulas estão misturadas ao estrume. Além de identificar o que nos faz bem no meio de outras coisas que não prestam em nosso pensamento, separar faz parte do trabalho.


A tarefa de perguntar sobre os mistérios compreende os três cavaleiros com três cores diferentes. Eles representam o nascimento, a vida e a morte. O negro como símbolo da morte traz aspectos positivos de mudança e dissolução de antigos valores. Como imagem do inconsciente, o escuro significa o espaço de informações e percepções escondidas e que podem emergir.


“A Yaga, como Deméter, é uma velha deusa mãe-de-cavalos, associada à força da égua, bem como à sua fecundidade. O casebre de Baba Yaga é uma cocheira para os cavalos multicores e para seus cavaleiros” (1994, p. 121). Na mitologia grega, Deméter, ao procurar pela filha Perséfone (antiga Core sequestrada por Hades) se transforma em égua. Interessante que Estés encontra associações da história com ao mito grego Deméter-Core-Perséfone, assim como faz a acadêmica Maria Tatar (2004) no conto de fadas alemão Mother Holle (ver o post Individuação feminina nos mitos e contos de fadas).


Estar em pé nas quatro patas expõe a ascensão da iniciação e incorporação de um eu primitivo - em pé (humano) nas quatro patas (selvagem). Neste momento há a conscientização, aquisição de sabedoria e segurança. A caveira incandescente representa a luz do conhecimento.


O último estágio é a reformulação da sombra, que corresponde na história à queima da madrasta e suas filhas. A queima se dá pelo olhar da sabedoria. Não basta enxergar o problema, pois com a observação vem a responsabilidade de encarar o que precisa ser mudado, no caso o julgamento pernicioso.


A tríade, assim como em Mother Holle e no mito de Deméter-Core-Perséfone, encontra-se presente no conto Vasalisa de diversas formas. Está nas figuras maternas mãe-madrasta-Baba Yaga; nos elementos que se relacionam à sabedoria vinda à tona, boneca-Yaga-caveira; nas cores e suas representações, branco(nascimento)-vermelho(vida)-negro(morte); na sombra, madrasta-duas filhas; e no próprio processo de iniciação, vida-morte-vida (as Moiras). Os criados de Baba Yaga também são três pares de mãos.


Como mencionado em texto anterior, o conto de Vasalisa é semelhante ao Mother Holle (e ambos apresentam referências ao mito de Deméter-Core-Perséfone). Os dois manifestam o arquétipo materno, entre outros, tratam do processo de crescimento feminino, da aquisição de algo que não se tinha antes (sabedoria e independência) e apresentam provações à heroína pelo percurso, que são as tarefas a serem realizadas.


Esses não são os únicos contos que tratam da iniciação da heroína, há muitos outros semelhantes, o que revela a importância dessa temática no momento social em que essas histórias foram criadas e disseminadas oralmente. Não podemos esquecer dos aspectos culturas e sociais dessas narrativas, o que não exclui a possibilidade de uma análise pela psicologia analítica e arquetípica.


Afinal, como Jung (2008) expôs ao argumentar a respeito, os arquétipos são determinados de um modo limitado pela expressão formal e não pelo conteúdo. “Tais imagens são ‘imagens primordiais’, uma vez que são peculiares à espécie, e se de alguma forma foram ‘criadas’, a sua criação coincide no mínimo com o início da espécie” (2008, 90). Ou seja, não deixam de ser produtos culturais como tudo que é humano. Uma exploração pelo prisma psicológico não se contrapõe a uma análise discursiva, capaz de apreender o contexto e o signo ideológico, apenas se difere dela.


Referências

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2008

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Aleph, 2006.

TATAR, Maria (Org). The annotated brothers Grimm. WW Norton & Company: New York, 2004.


Fonte da imagem: https://aventurasnahistoria.uol.com.br

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