Reflexões sobre a mulher na arte botânica

Atualizado: Jan 19



Sempre me encantei com ilustrações botânicas. Mas só comecei a pesquisar sobre essa arte, que se aproxima bastante da ciência, na loucura de 2020, entre quarentena e questionamentos profissionais. Chama a atenção a relevância que as mulheres têm nesse campo desde os séculos passados. Somente para citar algumas mais antigas de nome internacional: Maria Sibylla Merian (1647-1717, alemã), Marianne North (1830-1890, inglesa), Margaret Mee (1909-1988, inglesa) e Mary Agnes Chase (1869-1963, inglesa).


O livro da artista americana Wendy Hollender “Botanical Drawing in color: a basic guide to mastering realistic form and nasturalistic color”, que ensina uma técnica com lápis de cor, guiou minhas primeiras tentativas na prática. Depois cursei por dois meses as aulas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro de aquarela botânica, com Malena Barreto, uma expert na área. Assim como Malena, Maria Cecília Tomasi, Diana Carneiro e Dulce Nascimento são ilustradoras brasileiras que receberam a bolsa da Fundação Botânica Margaret Mee para especialização no Royal Botanic Gardens of Kew, na Inglaterra.


À procura de respostas para o histórico destaque feminino na área, visto que nós sempre fomos excluídas de tudo pelo machismo, encontrei algumas explicações. A botânica foi considerada apropriada para as mulheres como um hobby, no século XVIII, devido à relação que se faz culturalmente entre flores, plantas e feminilidade. Antes elas eram proibidas de realizar trabalho de campo, o que favorecia atividades mais reclusas como a ilustração. Já no Brasil, algumas pesquisas mostram, recentemente, a ligação entre o maior número de mulheres na botânica com o fato dessa área ser desvalorizada no âmbito das ciências biológicas. (Henson, 2000), (Pilon; Durigan, 2011).


De qualquer modo, as mulheres desempenharam e desempenham papel importante na botânica e em sua ilustração especificamente. Algumas privilegiadas (no sentido de classe econômica, capital social e país de origem) conseguiram antes do século XX a façanha de ir a campo em busca de seus modelos, como a inglesa Marianne North, que veio sozinha ao Brasil com 43 anos, entre 1872 e 1873 (Bandeira, 2012). O seu círculo social contava com ninguém menos que Charles Darwin.


As pinturas dessa artista são incríveis, mas é preciso pontuar que ela representava o etnocentrismo imperialista europeu que buscava a expansão para além do continente. Inclusive Marianne expressava em suas memórias, publicadas postumamente, o pensamento escravocrata na época em que visitou o nosso país.


É impossível não refletir sobre o fato de a ilustração botânica ser elitista em sua origem e ainda hoje, já que os materiais são caros. O destaque das mulheres europeias, brancas e abastadas reforça a ideia dos diferentes feminismos. É revoltante ler algumas passagens das memórias de Marianne que demonstram bem o preconceito e a violência contra os negros desde o passado escravocrata. Um exemplo disso é o seguinte trecho em que ela fala sobre aluguel de escravos no Rio de Janeiro.


"[...] uma garota para trabalhos domésticos recebia cinco libras por ano e dois conjuntos de roupa, além dos diversos presentes para mantê-la de bom humor e evitar que fugisse de volta para os seus verdadeiros donos. É um erro supor que os escravos não são bem tratados, em todos os lugares os vejo sendo mimados como mimamos animais de estimação e, em geral, estão sempre sorrindo e cantando." (NORTH, 2012, p.159)


Apesar disso tudo, é possível separar a arte da artista no sentido técnico. Mas o olhar crítico não pode ser descartado. Mulheres consideradas pioneiras e exemplos em suas áreas nem sempre eram conscientes socialmente. Elas podem ter aberto caminho para apenas um tipo específico de mulher, a branca de classe alta.


*************

BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North: 1872-1873. Sextante: São Sebastião, RJ, 2012.


Henson, P. 2000. A invasão da Arcádia: As cientistas no campo da América Latina, 1900-1950. Cadernos Pagu 15: 165-197.


Hollender, Wendy. Botanical Drawing in color: a basic guide to mastering realistic form and nasturalistic color. Watson-guptill Publicationss, New York, 2010.


NORTH, Marianne. Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North: 1872-1873. Sextante: São Sebastião, RJ, 2012.


PILON, Natashi Aparecida Lima; DURIGAN, Giselda. A mulher na botânica: questões de gênero na participação feminina em congressos de botânica no Brasil. Hoehnea. São Paulo, v.38, n.1, p. 115-121, mar. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-89062011000100010&lng=en&nrm=iso>. Acessado em: 11 de nov. 2020.

40 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo