Sobre "A sucessora"


Uma grande polêmica envolve a obra A sucessora, de Carolina Nabuco (1890-1981), publicado em 1934. Justamente por isso o romance me atraiu, além do protagonismo feminino e da bela edição de 2018 da editora Instante. Não por mera coincidência, a história é bastante parecida com a de Rebecca, a mulher inesquecível, dirigido por ninguém menos que Alfred Hitchcock, em 1940 (outro post do blog trata desse filme).


Ganhador do Oscar de melhor filme, a obra teve o roteiro baseado no livro Rebecca da inglesa Daphne du Maurier, de 1938. Descobriu-se, então, que essa última plagiou a brasileira. Carolina não recorreu à justiça e, apesar do incidente, foi bem-sucedida com o trabalho no Brasil.


A sucessora também ganhou uma adaptação audiovisual aqui, em 1978, no formato ficcional mais famoso da nossa televisão – a telenovela. De autoria de Manoel Carlos, a novela foi protagonizada por Suzana Vieira.


O problema é que após consultar fotografias da época e ver a atriz no papel, eu só conseguia imaginar a heroína como a Suzana Vieira jovem durante a leitura. Pelo menos a imagem dos outros personagens eu consegui construir mais livremente na minha cabeça.


Pois bem, o livro de teor psicológico narra os conflitos internos de Marina, recém-casada com um viúvo milionário, cuja mansão ainda é marcada pela personalidade da falecida mulher, Alice. Marina se vê atormentada por essa presença invisível revelada na escolha da decoração, nos móveis da casa, no costume dos empregados, nas conversas dos amigos do marido e da cunhada.


O retrato de Alice, uma obra de arte, pendurado na parede é o objeto que mais perturba a nova dona da casa. É interessante acompanhar os seus pensamentos, impressões e aflições ao adentrar em um mundo que lhe é estranho até então.


Filha de fazendeiros, herdeira dos senhores de engenho, Marina deixa a mãe no interior e vai para o Rio de Janeiro após o casamento. Era época de transformação no Brasil, de crescimento de uma burguesia urbana. Os costumes dos cariocas ricos são expostos pela autora ao longo da narrativa.


Mas me chamou a atenção as menções ao período escravocrata e aos negros. Carolina Nabuco era filha de Joaquim Nabuco (1848-1910), jurista, diplomata, advogado e historiador abolicionista. É de se supor que a escritora também tenha herdado a mesma disposição contra a escravização. Ainda assim não é livre de preconceitos. Algumas passagens são chocantes para os dias de hoje. Por exemplo na descrição de Isabel “uma mulatinha da fazenda que crescera a seu serviço” e que continuou servindo Marina.


“Para uma mulatinha tão moderna de aspecto e tão jeitosa na costura e no penteado, Isabel era incompreensivelmente atrasada. Seu sangue africano alvoroçava-se com a menção de agouros e bruxarias. O catecismo não havia destruído nela as crenças bárbaras em feitiços e exorcismos.”


Talvez o espírito de Carolina Nabuco possa ser explicado através da personagem Dona Emília, que foi a favor do abolicionismo (evento ocorrido durante sua juventude), mas conservou bem viva a discriminação contra os negros. Seria uma Carolina contraditória. Ao mesmo tempo que pretende criticar certas formas de preconceito em suas personagens, o reforça em outras passagens do livro na voz da narradora.


Enfim, acredito que a obra traga muito do pensamento da época no Brasil. E por isso vale a pena a leitura, além da narrativa intimista bem construída.


Fonte da imagem: Publishnews

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