Sobre dinossauros, livros para comer e grunhidos



Imagine que você é um cientista, e inventa uma máquina do tempo. E viaja para o tempo dos dinossauros, quando não havia o homem. Lá você descobre coisas incríveis sobre essas criaturas que habitaram o planeta há milhares de anos. Só que, embora tenha conseguido ir, você ainda não descobriu como voltar ao seu tempo presente com a sua máquina. Ou seja, você está preso no tempo dos dinossauros e é o único exemplar humano que existirá neste tempo. O que isso significa? Que por mais coisas legais que você descubra, não vai poder contar nada a ninguém. Terá valido a pena mesmo assim?


Essa é a premissa de um livrinho que caiu nas minhas mãos há muito tempo, e que eu já nem me lembro como chama. Mas a ideia principal nunca me saiu da cabeça: somos seres coletivos, nossa sobrevivência depende do contato com o outro, e da transmissão de nossas histórias. O livro nada mais é do que um belo suporte para que as histórias orais – sejam reais ou ficção – não se percam no tempo como nosso amigo no tempo dos dinossauros.


Por que, então, muita gente ainda deixa a cargo da escola a tarefa de ler com as crianças? A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2020” (com dados de 2019) mostra que crianças e adolescentes de 5 a 17 anos formam o maior grupo de leitores no Brasil, para quem a maior motivação para ler ainda é simplesmente o gosto. E, mesmo assim, a maior influência no hábito de leitura e na escolha dos livros vem dos professores. As mães vêm em seguida como “influencers”. Já os pais... bem, mas isso é tema para outro texto.


A pesquisa aborda crianças a partir de 5 anos, porque é quando elas já têm certas habilidades para ler e manusear um livro sozinhas, mas a relação com os livros pode começar a ser construída muito antes. E só tem benefícios. Há quem diga que você pode ler para o bebê quando ele ainda está na barriga – mas isso é como qualquer mãe que conversa com a própria barriga, ou canta para seu bebê, coisas que nem toda grávida se sente à vontade para fazer (meu caso!). Em compensação, por aqui comecei a ler para meus dois filhos ainda bebês. Eles entendiam? Claro que não. Mas contar uma história, usando expressões faciais, às vezes grunhindo, às vezes fazendo caretas, marcando a fala, e interpretando diálogos prende a atenção deles, e ajuda, muito, no desenvolvimento da linguagem. E, quando digo linguagem, não me refiro apenas à fala, mas ao reconhecimento da entonação, do significado por trás disso. Ou seja, o que uma cara feia representa? Um sorriso? O bebê ainda não sabe exatamente que o sorriso pode expressar alegria. Essas associações vão sendo aprendidas. E a leitura é uma ótima forma de ensinar isso de maneira lúdica.


E não para por aí. Estudiosos do tema enumeram uma lista de benefícios

  • Melhora o raciocínio e a capacidade de concentração;

  • Ampliação de vocabulário, domínio da linguagem oral, e maior facilidade em se expressar;

  • Ampliação de repertório;

  • Estímulo à criatividade e imaginação;

  • Promoção de vínculo com os pais, criando conexão e sensação de segurança com o bebê;

  • Contribuição para um bom desempenho escolar no futuro, com maior capacidade de escrever e interpretar textos.

“Ah, mas meu filho não presta atenção”. “Meu filho quer rasgar ou comer os livros”. Bem, e quem falou que experimentar livros tem a ver só com a leitura em si? Olhar as ilustrações, sentir texturas diferentes (inclusive usando a boca para isso) são também formas de contato. O importante é que tudo seja mediado por você – mãe ou pai – para que esse seja um momento de conexão, de amor, de prazer. E, de quebra, num futuro próximo você ainda vai poder usar os livros a seu favor: há vários títulos que abordam de maneiras lúdicas como falar com crianças sobre tirar chupeta, fazer cocô na privada, dormir no próprio quarto, como lidar com o luto, e até mesmo sobre o pum. É, pois é. Quando a gente vira mãe (ou pai), a leitura também nos brinda com infinitas novas possibilidades – inclusive de descobrir e decorar os nomes impronunciáveis de todos aqueles dinossauros que o personagem daquele livrinho deve ter encontrado na sua viagem no tempo.


Aline Sgarbi é uma eterna curiosa com as coisas do mundo, o que a levou a ser jornalista, para ouvir e contar histórias. Mãe de dois, agora conta histórias também para seus rebentos.


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