O espaço feminino no filme Adam

Atualizado: Jan 20



Recentemente assisti ao filme Adam motivada pelo trailer. Além do foco no universo feminino, encantei-me pelo fato da história se passar em Marrocos, local distante do Brasil e de cultura diversa da nossa. Confesso que pensei (por pura curiosidade pelo desconhecido) que o longa-metragem traria paisagens de Casablanca. Mas não. Percorremos, em alguns momentos, de forma muito aproximada das personagens, ruas estreitas e becos labirínticos, típico das medinas.

O espaço é reduzido, restrito ao universo interior das duas mulheres protagonistas, à casa e padaria de uma delas e a primeiríssimos planos. Tudo parece redondo e circular. A câmera treme quando as acompanha bem de perto, as imagens de fundo são desfocadas, os barulhos ao redor se sobressaem como se estivéssemos ali junto delas, ouvindo o espaço público quase como uma ameaça.

A obra foi escrita e dirigida pela marroquina Maryam Touzani. Antes de assistir eu desconhecia a direção, mas ao terminar a sessão não me restava dúvidas de que uma mulher era a principal responsável pelo filme.

Abla (Lubna Azabal), uma viúva que cria sozinha a sua filha, abriga Samia (Nisrin Erradi), uma jovem grávida que acampa em frente à sua casa. Samia esconde a gravidez da família e, sem alternativas, pretende dar o filho para adoção e voltar a morar com os pais.

As duas têm em comum as tensões que envolvem a maternidade solitária, em diferentes âmbitos. Abla é dura e rigorosa com a filha, carrega muitas responsabilidades; Samia é vulnerável, luta para não se apegar à criança que está para nascer. Além da menina que torna o ambiente mais leve, a comida aproxima as duas mulheres. Abla possui uma pequena padaria e Samia começa a ajudá-la.

Em entrevistas publicadas na internet, a diretora conta que a história é inspirada em um fato real que vivenciou em Tangêr. Quando era criança, seus pais abrigaram uma jovem desconhecida que escondia a gravidez da família, assim como sua personagem. A interface com a vida real torna o olhar de Maryam Touzani ainda mais sensível. Uma mescla de memórias, vivências femininas e relações sociais compõem as personagens. É válido destacar também a maneira como a diretora alterna entre as duas mulheres a perspectiva pela qual a narrativa se desenrola.



Foto: site do jornal Folha de São Paulo

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